Reportagens
Guerrilha do Araguaia - Encontramos uma testemunha
Historicamente, a versão de que guerrilheiros teriam sido donos de Serra Pelada ainda guarda alguns mistérios a serem confirmados oficialmente. Porém, sem que ninguém soubesse, Roraima guarda uma parte dessa memória viva, encontrada por este repórter no final do mês de junho, durante uma visita feita a região sul de Roraima. Enquanto fazia a cobertura das convenções municipais naquela cidade brejeira, sempre de ouvido atento aos diálogos paralelos, ouvi quando Manoel Carlos do Nascimento contava sobre suas aventuras no Araguaia e como havia escapado vivo de dois acidentes de avião em pistas de garimpo em Marabá e Itaituba, no Pará. Algo sinalizava que ali havia uma grande história esperando para ser contada. Apresentei-me como jornalista e propus uma entrevista. Manelão topou e, a seguir, temos o relato de parte de um momento importante da história brasileira.
Durante 12 anos Manoel Carlos Manelão foi militar do exército, corporação da qual se desligou em 1969, depois de dedurar os Osvaldão e Diná para os homens fardados. Quando servia ao Exército em Marabá, Manelão assustou-se quando viu chegar à região os “terroristas” - na verdade membros do PC do B - que iriam arregimentar quadros para promover a histórica Guerrilha do Araguaia. Segundo a versão de Manelão, Osvaldo Orlando, o Osvaldão, líder do PC do B, queria ser “governador do Pará” e junto com Diná, chegou armado à região “trazendo sacos de dinheiro para promover a guerrilha”.
Num daqueles dias de 1969, Manelão voltava de uma caçada, com um veado abatido às costas, quando foi surpreendido por policiais que prenderam a ele e à sua mulher a mando do prefeito de Marabá. Manelão teve todas os seus bens confiscados. Para ganhar a liberdade e reaver seus pertences, tinha que delatar os “terroristas” Osvaldão e Diná, apontado onde eles estavam escondidos.
“Não tive outra opção, eu contei quen eram os “terroristas” e onde eles se escondiam. Já eram quase oito mil pessoas sendo treinadas para aguerrilha”, diz, na sua versão dos fatos.
Antes de dedurar os comunistas-guerrilheiros, Manelão travou luta com um deles. Hoje traz a marca no dedo anelar da mão direita, atrofiado em decorrência de um tiro que levara e onde ainda há caroços de chumbo e uma cicatriz, resultado de outro balaço que levou nas costas e lhe rasgou o peito. Ele guarda as marcas como registros do passado. “Esse meu dedo torto e essa cicatriz são memórias do que me aconteceu em Marabá. Num combate com os terroristas eu levei um tiro aqui nessa mão (mostra a mão direita) e nas costas (tira a camisa para mostrar a cicatriz). Aqueles pestes queriam dominar o Pará, mas não conseguiram. Foram todos mortos pelo Exército”, relata.
De acordo com Manelão, Altamira vivia assustada com a presença dos integrantes do PC do B, que promoviam treinamento de guerrilha na região e, segundo ele, movimentam muito dinheiro.
“Eu não sei de onde vinha tanto dinheiro. Eles compravam armamento pesado. O peste do Osvaldão queria dominar o Pará”, conta, dando a entender não ter noção de que participara de um dos momentos cruciais da história do país.
O papel de Manelão não se restringiu apenas a “dedurar” os guerrilheiros, não. A ele também coube uma parte ainda mais pesada do serviço: a degola dos corpos dos guerrilheiros assassinados pelos militares. “Eu não tinha outra opção. Depois de apontar onde os terroristas estavam, os militares começaram a matar todos que encontravam. A mim deram a ordem de cortar o pescoço deles. E eu fazia. Era ordem, não podia descumprir”, justifica. Nesse tempo Manelão ainda não havia deixado a caserna. A sua saída da corporação lhe foi dada como pagamento de uma promessa feita pelo seu superior, que aponta como sendo o Major Aragão. A promessa foi a seguinte: se ele delatasse os membros do PC do B, ele poderia pedir qualquer coisa que receberia. “Não pensei duas vezes, quero deixar o Exército”. Mesmo relutante a princípio, Major Aragão atendeu ao pedido do subalterno e providenciou a papelada para o seu desligamento.
‘Sobrevivi a dois desastres de avião’
A vida de Manelão até parece roteiro de filme americano. Cearense de Acaraú, ele saiu do Ceará na metade da década de 1960, indo parar na região de Marabá, Pará, em busca de ouro. Lá se estabeleceu não como garimpeiro, mas como militar. Passada a aventura de caça aos “terroristas”, forma como ele se refere aos membros do antigo PC do B, nosso personagem foi se estabelecer em Itaituba, também no Pará. Ali sim, começaria sua saga em busca de ouro. Seria em Itaituba que outra parte da sua incrível história se passaria.
Era 1979 quando Manelão, já proprietário de garimpo, saiu em busca de homens para trabalhar na escavação à procura do minério cobiçado. De retorno ao garimpo num avião monomotor tripulado por seis passageiros - ele, cinco peões e o piloto - quando a aeronave se preparava para pousar, houve uma pane no motor e o avião caiu de bico na pista, partindo-se ao meio. O piloto e cinco passageiros morreram. Manelão escapou.
“Não sei como pude sair vivo. Vendo o tamanho do destroço, com o avião partido ao meio não sei como puder sobreviver”, relata.
Um ano depois, novamente voltando para o garimpo em Itaituba, Manelão, dessa vez tendo apenas o piloto como companhia, enfrentava um tempo fechado, o que prejudicava a visão do responsável por conduzir a aeronave. “Então, com aquele tempo nublado, o piloto começou a descer, descer. Nós não víamos nada e o avião desceu muito. Quando percebemos estávamos a poucos metros de uma castanheira. Não deu tempo de desviar e o avião bateu de frente, mas eu consegui sair da aeronave e descer pendurado no cipó. O avião explodiu e o piloto morreu”, conta, de forma natural como se relatasse o enredo de um filme.
A saga Manelão continuaria em Roraima
A chegada de Manelão em Roraima se daria 1982. Aqui ele aportou com dois quilos e meio de ouro. Se estabeleceu na comunidade de Santa Rosa, município de Alto Alegre, onde também se dedicou à atividade garimpeira. Com o dinheiro fruto da venda do ouro, comprou novo maquinário e começou a trabalhar. Em pouco tempo já era dono de 12 pares de máquina e 2 aviões monomotor e nada menos que 12 quilos de ouro. Quando atingiu esse estágio econômico. Movido pela ambição de conseguir mais e mais ouro, Manelão foi garimpar na área indígena Yanomami, onde encontrou ouro em grande quantidade e chegou a fazer uma pequena fortuna. Era o ano de 1986. “Aquele foi um período bom, ganhei muito dinheiro. Eu tinha uma pista de pouso e avião e 18 pares de máquina trabalhando. Mas gastei tudo com mulher, porque não tem nada melhor nessa vida”, diz o hoje solteiro Manelão.
Cinco anos depois (1991), Manelão se aventurou novamente na fronteira do Pará com Roraima. Foi em busca de ouro na região de Trombetas, de onde seria expulso em seguida pela Polícia Federal. A polícia fechou o garimpo e dinamitou as quatro pistas de pouso que tinha, apreendendo também seu maquinário. Manelão também teve a sua casa confiscada, uma vez que a atividade garimpeira na região era proibida. Hoje, depois de tantas aventuras, Manelão sobrevive com a aposentadoria minguada de um salário mínimo.
“Um ex-integrante do exército não poderia ganhar só essa micharia”, reclama. Também mantém um bar em São Luis do Anauá. “Apesar de tudo, vivo tranquilo. Não devo a ninguém”.
Com o rosto ornado por um óculos de armação fina, um sorriso com seus dentes incisivos cobertos de ouro à mostra, um cordão de ouro de 40 gramas no pescoço e um cigarro sempre acesso na boca, Manelão se diz um homem feliz, mas saudoso da mulher que mais amou na vida. A sua grande paixão se chamava Teresinha Barros de Oliveira, com quem teve oito filhos. Foi junto dela que viveu a aventura de combate aos “terroristas” em Marabá e com quem foi preso para poder entregar os integrantes do PC do B à polícia.
Vinte e seis mulheres e uma paixão
Mesmo tendo sido casado quatro vezes e vivido com outras 22 mulheres ao longo da vida, Terezinha foi a única que deixou marcas profundas na vida de Manelão e de quem ele recorda carinhosamente até hoje.
“Essa eu amava de verdade. Ainda hoje ouço as músicas que ouvíamos juntos e lembro dela. Tenho todos os LPs e fitas cassetes que ela gostava de ouvir”, conta.
Apesar de ter desposado 26 mulheres, Manelão não se considera um conquistador. “Que nada. O que ela queriam era dinheiro. E dinheiro eu tinha. Fora a Terezinha, as outras só tinham interesse”, diz.
Memória viva de parte importante da história do país, ainda que pareça não ter consciência disso, Manelão diz que “ter vivido tudo isso foi uma coisa muito boa”. Ele se considera “um homem feliz”. No entanto, a maioria dos seus conhecidos da mesma época das suas aventuras já não estão mais vivos para confirmar as suas estórias. “Meus amigos morreram todos. Parte foi assassinada, outra parte morreu de doença. E eu estou aqui vivinho, contando essas histórias todas”, fala, com um sorriso dourado à mostra. “Não trago nenhum arrependimento, de nada”, frisa.
“Manelão é gente boa” - Um dos amigos com quem Manelão proseia e conta os causos e casos vividos durante a sua agitada vida de garimpeiro é o agricultor e comerciante Derci Marques de Souza, cuja amizade já dura duas décadas e meia. “Eu conheci Manelão quando ele se preparava para garimpar em Trombetas. Foi ele quem começou com os garimpos naquela região, até ser expulso de lá”, conta. “Manelão saiu daqui com um remanchim nas costas e se embrenhou mata a dentro”, relata. “Trata-se de uma pessoa boa. Tem muitos amigos aqui em São Luís do Anauá. Ninguém aqui tem nada de ruim para dizer dele, não”, complementa.
Texto e fotos: Luiz Valério
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(material de 14.06.2008)
Mapa da pedofilia: leia se tiver estômago
A “síndrome de lobo mau” - apelido que dou à psicopatologia que leva à prática da pedofilia - parece estar deformando silenciosamente a elite roraimense. Quando eu cheguei em Roraima no ano de 2002 e fui contratado como repórter de cotidiano da Folha de Boa Vista, ouvia sempre por onde andava autoridades e pessoas da sociedade, e até mesmo jornalistas, afirmarem que o índice prostituição infantil e exploração sexual de crianças que assolava cidades como Rorainópolis, Iracema e Pacaraima, Bonfim, Mucajaí e Boa Vista estava diminuindo. Os números da Delegacia Especializada de Defesa da Criança e do Adolescente e do Núcleo de Defesa da Criança e do Adolescente mostram exatamente o contrário. Somente naquele ano de 2002 o Comitê de Enfrentamento ao Abuso, Exploração e Tráfico para Fins Comerciais de Crianças e Adolescentes, anteriormente chamado de “Projeto Sentinela” atendeu nada menos de 100 crianças vítimas de abuso, tráfico e exploração sexual. Isso representa uma média de 8,33 crianças aviltadas por mês.
Mas, como os números não mentem jamais, os dados revelam que o desvio da sexualidade e a manifestação de caráter compulsivo e obsessivo tem atingido, além dos próprios pais e responsáveis pelas crianças, muito mais granfinos e endinheirados do que poderíamos supor. Os 100 casos de abusos contra crianças e adolescentes registrados em 2002 evoluíram geometricamente, tendo como cidades mais recorrentes Boa Vista, Rorainópolis, Bonfim e Mucajaí. Vamos aos números: No ano de 2003, os órgão de proteção à criança e ao adolescente receberam 595 denúncias de abusos. Se esse número já assusta, os dados de 2004 são ainda piores. Foram 970 casos registrados, 375 a mais. No ano seguinte houve um aumento de mais de 100% nos casos de abusos chegados aos órgão protetores: 1.850 notificações, ou seja, mais de cinco ocorrências por dia. Algo realmente assustador.
Os motivos para espanto não param por aí. Os números que revelam o grau de doença que acomete parte da sociedade local não pararam de crescer. De 2005 para 2006 novamente os números sobre abusos, tráfico e exploração sexual de crianças mais que duplicaram. Houve um salto dos já indigestos 1.850 casos para 3.747, uma média de 10,26 ocorrências por dia. Os motivos para preocupação dos pais e responsáveis por crianças continuaram crescendo no ano passado. Foram notificados 6.048 casos de algum tipo de assédio ou abuso contra crianças e adolescentes. Conforme os dados fornecidos pelos órgãos de proteção da infância e da adolescência para a deputada estadual Marília Pinto (PSDB), dos casos registrados em 2007 contra menores de idade, 2.151 foram de abuso sexual e 422 de exploração sexual, dos quais 159 eram meninas e meninos com idade entre sete e 14 anos.
Em menos de uma década 14.403 crianças e adolescentes foram submetidos a algum tipo de abuso, assédio ou prática aviltante contra a sua inocência e dignidade em Roraima
Neste ano de 2008, a situação caminha para uma realidade ainda mais sombria (ou caminhava, pois espera-se que com a ação da Polícia Federal no desmantelamento da rede de pedofilia as mentes doentias sejam tiradas de circulação e as que conseguirem escapar do cerco policial contenham seus instintos bestiais). Somente nos meses de janeiro, fevereiro e marco deste ano já foram contabilizados 1.093 casos de algum tipo de abuso contra crianças e adolescente. Uma demonstração inequívoca de que uma doença silenciosa e de efeito sócio-cultural com a força de um tsunami carcomia silenciosamente a sociedade local, longe da vista da população e contando com a complacência e participação dos endinheirados. A infância estava sendo espoliada de forma canalha com a participação de empresários, autoridades, políticos, traficantes de drogas e demais aliciadores cujos nomes deverão vir à tona na sua totalidade com o desdobramento da “Operação Arcanjo”, da Polícia Federal.
O ceticismo que a lida de repórter me deu ano longo de mais de uma década de atividade jornalística ininterrupta em veículos como jornal, rádio e internet nunca me deixou acreditar na redução dos números do abuso sexual cometido contra menores em Roraima. A atmosfera e os comentários complacentes me davam a certeza de algo repugnante ocorria do lado de dentro de alguns endereços chiques da cidade. Faltavam as provas. Agora foi tudo escancarado pela operação da Polícia Federal. A detenção do ex-procurador do estado Luciano Alves Queiroz e de mais sete pessoas que compunham uma rede de pedofilia e tráfico de drogas, na sexta-feira (6), é, como disse o delegado da PF, Ivan Herrero Fernandes, apenas a ponta de um monstruoso aiceberg.
‘É preciso vencer a hipocrisia’
Esta semana que termina hoje foi nauseante quanto às revelações sobre a quadrilha de pedófilos. Foi constatado que há uma adolescente de 13 anos grávida do ex-procurador Luciano Queiroz (foto). Uma outra está amparada pelo Programa de Proteção a Testemunha em outro estado por estar sofrendo ameaças. A dona-de-casa Lidiane do Nascimento, além de vender a inocência da sua própria filha, ainda assistia às cenas de terror às quais as crianças eram submetidas no motel buritis ou mesmo na residência do procurador. Enfim, um circo de horrores que tinha como protagonistas autoridade e empresários.
Como naqueles casos em que só se fecha a porta depois que o ladrão comete o roubo, parte das autoridades roraimenses passou a se manifestar indignada com a “descoberta” da Polícia Federal de que gente da alta sociedade local fazia parte da rede de pedófilos. Na Assembléia Legislativa os deputados estaduais Tião Portela (PR), Marília Pinto (PSDB) e Erci de Moraes (PPS) falaram sobre os casos de pedofilia demonstrando indignação. Por sua vez, o prefeito de Boa Vista, Iradilson Sampaio (PPS), esteve na Superintendência da Polícia Federal de Roraima, na quinta-feira (12), para se colocar à disposição do superintendente José Maria Fonseca. “Estamos aqui para auxiliar no que for preciso”, disse o prefeito.
“Esse episódio consiste numa ofensa grave às crianças brasileiras e roraimenses. Quero deixar aqui registara da minha indignação e a minha revolta”, discursou Portela.
A deputada Marília disse ser difícil identificar um pedófilo, dada a insuspeição das pessoas que carregam o hábito dessa prática. Ela também lamentou o fato de o Código Penal Brasileiro não prever a pedofilia como crime.
“Em 1945 esse assunto não fazia parte dos debates”, frisou.
Já o deputado Erci de Moraes afirmou que a sociedade roraimense precisa quebrar a barreira da hipocrisia, pois antes da Operação Arcanjo ser desencadeada ouvia-se comentários sobre possíveis abusos contra crianças no meio da elite local, mas a mesma fazia vistas grossas. José Antônio Pereira, coordenador do CMDH, disse que a “Operação Arcanjo” foi uma ação do governo federal com o objetivo de acabar com esse tipo de prática em Roraima.
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(07.06.2008)
ESTADO DE GREVE
Servidores e governo medem força
Um estado em ebulição permanente. Assim é Roraima. Quando o conflito envolvendo a homologação da terra indígena Raposa/Serra do Sol se acalma - pelo menos aparentemente - os movimentos de servidores públicos - da educação, da saúde e de setores administrativos - pipocam um dia após outro. Desde que foi elevado à categoria de unidade federada pela Constituição de 1988, Roraima vive esse clima de incerteza e intranqüilidade institucional. Escândalos políticos, esquemas de corrupção desmantelados, servidores insatisfeitos, pobreza absoluta na periferia da capital e nos municípios interioranos, falta de infra-estrutura, tudo conspira para o agravamento do quadro de infecção generalizada que toma conta do tecido social desta terra. Este repórter assiste e participa da cobertura dos principais fatos no campo político daqui desde 2002. E tem a certeza de que tudo poderia ser diferente, se a elite política local agisse pelo bem comum e não apenas na defesa dos seus interesses pessoais e pelo cumprimento de acordos de gabinete.
Mas, passemos ao relato das greves. Roraima tem cerca de 4.500 professores concursados. Até o ano passado, a categoria reclamava a aprovação de um Plano de Cargos e Salários (PCS), que acabou sendo aprovado pela Assembléia Legislativa no mês de agosto de 2007. Com o PCS, os professores tiveram um aumento de salário de 20%. Um professor de nível superior em início de carreira passou a receber R$ 1.547,74 mais uma gratificação de incentivo à docência (GID) no valor de R$ 557,26. O secretário de Educação Luciano Moreira diz repetidas vezes à imprensa que este é o segundo melhor salário do país pagos à categoria e que os professores roraimenses não tem do que reclamar.
No entanto, o governador Anchieta Júnior (PSDB) cometeu um erro estratégico ao enviar, no mês de abril, um projeto de lei concedendo aumento diferenciado para os servidores públicos: policiais civis e engenheiros tiveram aumento de mais de 74%, enquanto que professores e funcionários da área administrativa de nível médio receberam apenas 10%. Esse foi o estopim que fez explodir os movimentos grevistas. Desde então os servidores públicos ganharam as ruas. Para piorar a situação, as partes se mostram reticentes quanto a abrir mão das suas posições.
Desgostosos com o tratamento diferenciado e afirmando que o governo não tem compromisso com a qualidade da educação, os professores iniciaram uma “operação tartaruga” - redução gradativa da jornada de trabalho - no dia 8 de maio. Era uma forma de tentar pressionar o governo a atender os seus reclamos. Depois de sucessivas reuniões, os professores elaboraram uma pauta com 22 reivindicações, entre as quais a isonomia salarial e a melhoria das condições de trabalho nas escolas. O diálogo parecia estabelecido. No entanto, governo alegou não poder atender a reivindicação de aumento salarial de 35%, requerido pelos professores (e também pelos servidores administrativos). Aí, a “operação tartaruga” evoluiu para uma greve geral. Para o secretário Luciano Moreira, ao deflagrarem a greve “os professores estão sendo intransigentes e inconseqüentes”.
“Roraima é um estado pobre, com o menor Produto Interno Bruto (PIB) do País e não tem como dar 35% de aumento para todos os servidores”, alega.
Educadores e alunos em lados opostos
Historicamente as greves de professores no Brasil tem contado com o apoio da entidades representativas dos estudantes, ainda que estes no final das contas sejam os reais prejudicados com a paralisação das aulas. (Cabe lembrar aqui que as greves são fruto da desvalorização dos profissionais de educação em nível nacional, que recebem remuneração bem aquém da sua real carga de trabalho. O trabalho de um professor não se encerra na sala de aula. Tem continuidade em casa, nas pesquisas, planejamentos, elaboração e correção de trabalhos e atividades.)
Em Roraima, as associações de estudantes UGE (União Geral dos Estudantes) URES (União Roraimense dos Estudantes Secundaristas) e UMES (União Municipal dos Estudantes Secundaristas) se colocam contra a greve dos professores. Tanto que protocolaram uma denúncia no Ministério Público Estadual na qual pedem a intervenção do órgão pelo fim da greve. O presidente da UGE, Deividson Rabello, alega que a iniciativa se deu pela reivindicação de um posicionamento das entidades pelos estudantes que estão concluindo o ensino médio e se preparam para o vestibular.
Por outro lado, o fato das associações de estudantes terem sido alijadas das discussões também ensejou o posicionamento contrário ao movimento grevista. É o testemunho de Rabello que deixa isso claro:
“Em todo o Brasil, ainda há o diálogo entre os sindicatos de professores e as entidades estudantis. Mas aqui em Roraima eles ignoraram o movimento dos estudantes. Entidades como a URES, que tem 56 anos de história, a UMES, com 17 anos, e agora a UGE, que está na caminhada há dois anos, foram ignoradas” diz o líder estudantil, afirmando que no estado há uma lacuna nos movimentos sociais.
Detalhe: A UGE foi criada em 2006 para fazer oposição à diretoria da URES. No ano passado, a entidade conseguiu se “infiltrar” na rival e eleger sua nova diretoria. Acabaram-se as desavenças e as três entidades unificaram as ações. “O movimento dos professores não dialoga com o movimento dos estudantes”, observa. “Nós estivemos conversando com estudantes da escola Antônio Carlos Natalino e os professores foram hostis com a gente”. Segundo Deividson, o posicionamento contrário dos estudantes é uma lição a ser aprendida pelas entidades dos educadores. (L.V)
‘Professores foram precipitados’, diz governo
Governo e professores já vêm num jogo de cabo-de-guerra que dura anos. Na avaliação do secretário Luciano Moreira (na foto ao lado com a uma estudante indígena), o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Roraima (Sinter) foi precipitado ao deliberar pela greve. Moreira disse que 80% das reivindicações da categoria já foram atendidas. “Os professores pedem o não fechamento da Escola Especial e isso nunca foi ventilado pela Secretaria de Educação; requerem a gratificação dos alunos especiais que já está sendo paga; reclama refrigeração nas escolas e isso está sendo feito de acordo com as possibilidades; reclamam ainda a valorização dos profissionais da escola para que assumam a direção. Dizemos que 100% das diretorias já são ocupadas por professores”, enumera o secretário.
Moreira diz que o aumento salarial é o ponto difícil de ser atendido na pauta de reivindicação dos professores, devido às restrições orçamentárias do estado. “O PIB do estado não permite”, alegou. Moreira admite que houve um equívoco na redação do projeto de lei que colocou os percentuais acrescidos aos salários dos servidores como aumento, quando, na verdade, “era apenas uma equiparação salarial”. Ele afirma que os professores vão receber os 10% retroativos ao mês de abril de 2008. No entanto, o acordo para a concessão dos 10% de aumento ainda estava sendo costurado no meio da semana. O presidente do Sinter Ornildo Roberto disse, na quarta-feira (4), após uma reunião com o secretário Luciano Moreira, Aroldo Amoras (Planejamento) e Leocádio Vasconcelos (Fazenda), que a categoria iria se reunir na sexta-feira (6) em Assembléia Extraordinária para deliberar sobre o assunto. Este editor conversou com Ornildo Roberto às 16h05 deste sábado e ele disse que a greve está mantida. Na Assembléia Extraordinária de ontem, a categoria decidiu por continuar a mobilização. Professores do interior do estado estão vindo para a capital Boa Vista para se integrarem às manifestações.
A proposta do governo é conceder os 10%, desde que os professores voltem à sala de aula imediatamente, e fazer um estudo de impacto financeiro para ver a possibilidade de ampliar o percentual posteriormente. Ornildo não gostou muito da proposta. O sindicalista disse ainda que o governo acenou com a possibilidade de formar uma comissão com a participação do sindicato para fazer o levantamento de quantos professores já têm direito às progressões vertical (tempo de serviço) e horizontal (por titulação) para começar a pagar o benefício somente a partir de agosto, pois a legislação eleitoral não permite que o pagamento seja feito agora. A categoria também não gostou da proposta. Considera que 90 dias é muito tempo.
O governador Anchieta Júnior entende que as greves fazem parte do processo democrático, “quando legítimas’, e que elas ’são um mecanismo de negociação”. “Porém, educação e saúde são serviços essenciais que devem ser olhados com serenidade e convicção por parte dos servidores que devem refletir sobre a justeza da greve”, afirmou. O gestor do estado observa que os professores receberam aumento de 20% com a aprovação do Plano de Cargos e Salários da categoria em 2007 e que a reivindicação de novo aumento pode ser negociada. E alertou: “não será a greve que vai nos obrigar a ignorar os nossos limites [orçamentários]“.
Anchieta Júnior repetiu aos veículos de comunicação que “todas as categorias de servidores foram contemplados com aumento. Questionado por este repórter sobre o porquê dos professores - que são responsáveis pela formação de outros profissionais - salários sempre menores que outras categorias de nível superior, ele respondeu: “no Japão os professores ganham o segundo melhor salário do país, mas isso não quer dizer que eu sozinho tenha condições de mudar a realidade da educação no país”. (L.V)
Sintraima quer efetivos em cargos de confiança
Os servidores administrativos, representados pelo Sintraima, também estão causando dor-de-cabeça ao governo estadual. Em greve desde segunda-feira (2) o sindicato dá andamento à coleta de assinatura para dois projetos de iniciativa popular. Um dos projetos pretende obrigar o governo a destinar os cargos comissionados e as funções gratificadas - hoje ocupados por quem faz parte do jogo político local - par servidores concursados. Isso serviria, inclusive, para a escolha dos secretários adjuntos. Para viabilizar o projeto, o Sintraima precisa de 12 mil assinaturas. Até agora só foram coletadas duas mil.
“Muitas pessoas têm medo de assinar, temendo represália”, afirma Josenildo Bezerra de Oliveira, da direção do sindicato. A outra coleta de assinaturas pretende viabilizar a efetivação do reajuste salarial de 24,06% para se somar aos 10% já aprovados pela Assembléia Legislativa.
Enquanto isso, os servidores administrativos ocupam os espaços públicos. Durante a semana eles se reuniram quase que diariamente na Praça do Centro Cívico, ponto estratégico a dois passos do Palácio Senador Hélio Campos (sede do governo) e da Assembléia Legislativa. Ao atravessar a rua eles entram na “Casa do Povo”, portando faixas e cartazes e ocupam as galerias. Não sem antes promover os apitaços típicos dos movimentos grevistas. Na terça-feira (3), eles chegaram às centenas na Assembléia Legislativa portando faixas e cartazes. Temendo tumulto, a guarda da Casa pediu reforço e logo chegaram os homens do BOPE roraimense. Foi o suficiente para que os apitaços diminuíssem. Os grevistas voltaram para o parlatório público localizado em frente à Assembléia Legislativa.
“O Governo do Estado está sendo injusto. Não se pode aceitar de 5.500 funcionários recebam um aumento de apenas 10% enquanto uma minoria representada pelos engenheiros recebe 74,1% de reajuste salarial”, diz Elson Alexandre Pinto, vice-presidente do Sintraima. Os servidores administrativos aprovados no concurso de 2004 ganham um salário de R$ R$ 470,00. “Quando são descontados os 11% do IPER (previdência do estado) e o do transporte para ir e voltar do trabalho sobra no máximo R$ 300,00 reais. E isso é insuficiente para um pai de família arcar com todas as suas responsabilidades”, afirma Elson Alexandre.
Na tentativa de se fazer ouvir pelas autoridades governamentais, o Sintraima encaminhou documentos com a suas reivindicações para a Secretaria de Administração do Estado (Segad), para o Gabinete Civil do governo estadual e para a Assembléia Legislativa. “Até agora o governo não quis dialogar com o Sintraima”, diz o sindicalista. “Não acredito que os políticos locais irão deixar o estado parar. Isso seria uma demonstração de incompetência. A insatisfação dos servidores só aumenta. Um estado como Roraima, cuja economia é movida à base do contra-cheque dos servidores públicos precisar tratar seus funcionários com mais atenção”, afirma. (L.V)
PS - Depois de um acordo com o governo, os servidores administrativos retornaram às atividades.
‘Professores foram precipitados’, diz governo
Governo e professores já vêm num jogo de cabo-de-guerra que dura anos. Na avaliação do secretário Luciano Moreira, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Roraima (Sinter) foi precipitado ao deliberar pela greve. Moreira disse que 80% das reivindicações da categoria já foram atendidas. “Os professores pedem o não fechamento da Escola Especial e isso nunca foi ventilado pela Secretaria de Educação; requerem a gratificação dos alunos especiais que já está sendo paga; reclama refrigeração nas escolas e isso está sendo feito de acordo com as possibilidades; reclamam ainda a valorização dos profissionais da escola para que assumam a direção. Dizemos que 100% das diretorias já são ocupadas por professores”, enumera o secretário.
Moreira diz que o aumento salarial é o ponto difícil de ser atendido na pauta de reivindicação dos professores, devido às restrições orçamentárias do estado. “O PIB do estado não permite”, alegou. Moreira admite que houve um equívoco na redação do projeto de lei que colocou os percentuais acrescidos aos salários dos servidores como aumento, quando, na verdade, “era apenas uma equiparação salarial”. Ele afirma que os professores vão receber os 10% retroativos ao mês de abril de 2008. No entanto, o acordo para a concessão dos 10% de aumento ainda estava sendo costurado no meio da semana.
O presidente do Sinter Ornildo Roberto disse, na quarta-feira (4), após uma reunião com o secretário Luciano Moreira, Aroldo Amoras (Planejamento) e Leocádio Vasconcelos (Fazenda), que a categoria iria se reunir na sexta-feira (6) em Assembléia Extraordinária para deliberar sobre o assunto. Este editor conversou com Ornildo Roberto às 16h05 deste sábado e ele disse que a greve está mantida. Na Assembléia Extraordinária de ontem, a categoria decidiu por continuar a mobilização. Professores do interior do estado estão vindo para a capital Boa Vista para se integrarem às manifestações.
A proposta do governo é conceder os 10%, desde que os professores voltem à sala de aula imediatamente, e fazer um estudo de impacto financeiro para ver a possibilidade de ampliar o percentual posteriormente. Ornildo não gostou muito da proposta. O sindicalista disse ainda que o governo acenou com a possibilidade de formar uma comissão com a participação do sindicato para fazer o levantamento de quantos professores já têm direito às progressões vertical (tempo de serviço) e horizontal (por titulação) para começar a pagar o benefício somente a partir de agosto, pois a legislação eleitoral não permite que o pagamento seja feito agora. A categoria também não gostou da proposta. Considera que 90 dias é muito tempo.
O governador Anchieta Júnior entende que as greves fazem parte do processo democrático, “quando legítimas’, e que elas ’são um mecanismo de negociação”. “Porém, educação e saúde são serviços essenciais que devem ser olhados com serenidade e convicção por parte dos servidores que devem refletir sobre a justeza da greve”, afirmou. O gestor do estado observa que os professores receberam aumento de 20% com a aprovação do Plano de Cargos e Salários da categoria em 2007 e que a reivindicação de novo aumento pode ser negociada. E alertou: “não será a greve que vai nos obrigar a ignorar os nossos limites [orçamentários]“.
Anchieta Júnior repetiu aos veículos de comunicação que “todas as categorias de servidores foram contemplados com aumento. Questionado por este repórter sobre o porquê dos professores - que são responsáveis pela formação de outros profissionais - salários sempre menores que outras categorias de nível superior, ele respondeu: “no Japão os professores ganham o segundo melhor salário do país, mas isso não quer dizer que eu sozinho tenha condições de mudar a realidade da educação no país”. (L.V)
Servidores da saúde retornam
Até o fechamento desta matéria, o movimento grevista dos servidores da saúde estava apaziguado. Houve um diálogo aparentemente bem sucedido entre governo e manifestantes. A secretária da Saúde Eugênia Glaucy disse ao Monte Roraima que os técnicos e auxiliares de enfermagem voltaram às atividades após serem convencidos pelo governo que não era possível conceder os 40% de aumento agora, em decorrência das proibições impostas pela Lei Eleitoral. Ficou tudo certo, segundo ela, para uma conversa futura. Glaucy também afirmou que o governo tem atendido as reivindicações dos servidores da saúde.
“Estamos desenvolvendo uma política de valorização da categoria”, afirmou, ornamentada num chapéu de palha em meio ao lançamento dos festejos juninos, na quarta-feira (4) pela manhã, no Palácio do Governo.
Para convencer os trabalhadores a voltarem às atividades, o governo se comprometeu em fazer a revisão do valor da gratificação por insalubridade, que hoje é de R$ 92, e a conceder a progressão vertical, de acordo com o que estabelece a Lei 392. A legislação diz que os profissionais têm direito ao ascender verticalmente a cada quatro anos de serviço. Isso representa um aumento no contra-cheque. Outra promessa que fez com que os técnicos e auxiliares de enfermagem retornassem ao trabalho foi a de que será enviada à Assembléia Legislativa o Plano de Cargo e Salários da categoria para ser aprovado até o final do ano e começar a ser aplicado a partir de janeiro de 2009.
Mas a negociação não transcorreu de forma, assim, tão pacífica. Mesmo depois de negociado o fim da paralisação, o governo entrou com recurso na Justiça, contestando a legalidade do movimento grevista. “Os problemas havidos em decorrência da greve foram informados à Justiça”, frisou a secretária.
A atitude causou descontentamento na categoria, que terá as faltas mantidas, o que significa desconto no salário. “Mesmo depois de negociarmos o retorno às atividades, eles [o governo] fez isso conosco”, disse Douglas Ribeiro, da diretoria do Sindicato dos Profissionais de Enfermagem de Roraima (Sindprer).
“A categoria ficou muito descontente e vamos usar o mesmo expediente para garantir os nossos direitos. Futuramente daremos uma resposta a eles, assim como todos os profissionais que estão descontentes com o governo”, afirmou. (L.V)
Fotos: site Roraima em Foco

Luiz Valério, 33, jornalista e blogueiro. Atua como repórter político desde 1997. Iniciou a carreira como repórter esportivo de rádio no Ceará. Formado em Letras, com Especialização em Comunicação Social e Novas tecnologias. Atualmente, atua como professor universitário.
Este blog, que denominei de Política com Pimenta, tem por finalidade publicar notícias e comentários sobre o tema política, desde a sua concepção mais rasteira, a partidária, até a política macro que envolve toda a vida em sociedade. Para exercer esse papel com lealdade aos leitores, o blog e seu autor se prendem aos princípios éticos que regem a profissão de jornalista. Temos como compromisso primeiro a busca pela informação correta sempre primando e defendendo, a qualquer custo, a liberdade de expressão.

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