Faz mais de duas semanas que Roraima está em evidência na mídia nacional. Desde que os ânimos se extaltaram devido à questão da homologação da demarcação em área contínua da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol e da suspensão da operação Upatakon 3, que faria a retirada dos nãó-índios da área pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que o olhar da “grande mídia” se voltou para cá.
Um dos hotéis da cidade está repleto de repórteres das grandes redes de televisão e dos jornais do eixo Rio/São Paulo. Todos em busca de informações sobre os conflitos que se desenrolam na região do Surumu, onde fica um das fazendas do rizicultor Paulo César Quartiero.
A prisão por formação de quadrilha e o deslocamento de Quartiero para a sede da Polícia Federal, em Brasília, tem causado revolta na elite local. Políticos de todos os matizes ocupam a tribuna da Câmara Federal, da Assembléia Legislativa e da Câmara de Vereadores de Boa Vista para tecer comentários sobre o assunto e condenar a ação da PF e do governo federal.
Nisso tudo uma coisa é certa: qualquer que seja a decisão do STF sobre o assunto, a questão não estará resolvida e solucionada. Se a decisão do Supremo for favorável aos “arrozeiros”, os indígenas ligados ao Conselho Indígena de Roraima (CIR) vão acionar as instâncias internacionais para pressionar o governo brasileiro e continuarão a fazer muito barulho. Se o STF decidir de forma a satisfazer o CIR, mantendo a demarcação contínua como foi decidido pelo rpesidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2005, serão os rizicultores que continuarão a protestar.
Fico analisando os discursos, os posicionamentos e vejo o quanto de despreparo há em boa parte dos atores políticos locais para debater a questão mais a fundo. Ficam na argumentação raza de querer ofender o governo federal com frases feitas e tal. Se os homems públicos de Roraima tivessem agido de forma mais inteligente na década de 1990, quando a demarcação da TIRSS foi feita, ainda no governo Collor de Melo, talvez a situação hoje fosse diferente. Por outro lado, não se pode negar o direito constitucional dos índios à terra. Se 1,7 milhão de hectares é muita terra para pouco índio, aí já é outra história.
A demarcação em ilhas talvez fosse mais racional. Caberá ao STF decidir sobre isso. Mas a sua decisão não será, repito, na solução definitiva da questão. Isso porque existe muito preconceito disfarçado contra os indígenas em Roraima por um lado e, por outro, uma boa parcela dos índios foi coopetada por empresários do agronegócio com subempregos mal remunerados e estes vêem isso como a redenção das suas vidas. Os dois lados da disputa pela área já demonstraram que não sabem respeitar as leis. É, portanto, uma situação extremamente delicada.
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