Justiça Eleitoral atenta contra liberdade de imprensa
20 junho, 2008 por Luiz ValérioA Justiça Eleitoral brasileira está trilhando um caminho bastante temerário. Depois do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ter baixado a Resolução 22.718 proibindo blogs de escrever sobre candidatos nessas eleições - o blogueiro Pedro Dória teve que tirar um banner de Fernando Gabeira, candidato a prefeito do Rio, do seu blog - agora foi a Folha de São Paulo e a Editora Abril, que publica a revista Veja São Paulo, que foram multadas pelo juiz Francisco Carlos Shintate em 22.282 por terem publicado uma entrevista com Marta Suplicy (PT), pré-candidata a prefeita de São Paulo. Hoje veio a notícia de que o jornal O Estado de São Paulo também está sendo acionado na Justiça pelo Ministério Público Eleitoral por ter publicado uma entrevista com o prefeito e candidato à reeleição, Gilberto Kassab (DEM). As empresas jornalísticas são acusadas de prática de propaganda eleitoral antecipada.
O assunto foi tratado hoje pelo Centro Knight pelo Jornalismo na América (Knight Center for Journalism in the America, em inglês) no seu blog Jornalismo nas Américas, que criou inclusive um mapa exclusivo no Google Maps no qual lista os casos de censura à imprensa brasileira nesse período pré-eleitoral. A organização não governamental (ONG) Ministério Público Democrático publicou um comunicado no qual repudia a ação da Justiça Eleitoral. Eis um trecho:
Nós, que já em nosso estatuto defendemos e lutamos pelo “respeito absoluto e incondicional aos valores político-jurídicos próprios de um Estado Democrático de Direito”, entendemos que o direito à informação, consagrado expressamente no art. 5º, XIV da Constituição Federal é um dos pilares deste Estado Democrático de Direito no Brasil e sua negação implica em obscurantismo jurídico e contribui para o agravamento do quadro de falta de consciência de cada brasileiro e brasileira a respeito daqueles que postulam cargos eletivos, dificultando-se o exercício de seu direito ao voto de forma consciente.
Essa postura da Justiça Eleitoral brasileira é extremamente danosa à liberdade de imprensa garantida pela Constituição Federal. Porque em vez de tentar cercear a liberdade de expressão de blogs e jornais, a Justiça Eleitoral não busca cumprir efetivamente o seu papel julgando devidamente as contas dos políticos e tirando do páreo aqueles que respondem a processos? Será que o eleitor não tem o direito de manifestar sua opinião em blogs e de ser informado sobre o perfil candidatos em quem vão votar no próximo pleito? Ou só cabe ao eleitor a obrigatoriedade do voto às cegas? Afinal, não se pode confundir material jornalístico com propaganda política.
O Brasil experimenta há pouco mais de duas décadas o gosto da liberdade de expressão, depois de se livrar do entulho autoritário que foi o governo militar e agora não pode retroagir no tempo e voltar a ter os meios de comunicação censurados novamente, só que agora pela Justiça. Essa postura é extremamente nociva aos valores democráticos defendidos em nossa Carta constitucional.

Luiz Valério, 33, jornalista e blogueiro. Atua como repórter político desde 1997. Iniciou a carreira como repórter esportivo de rádio no Ceará. Formado em Letras, com Especialização em Comunicação Social e Novas tecnologias. Atualmente, atua como professor universitário.
Este blog, que denominei de Política com Pimenta, tem por finalidade publicar notícias e comentários sobre o tema política, desde a sua concepção mais rasteira, a partidária, até a política macro que envolve toda a vida em sociedade. Para exercer esse papel com lealdade aos leitores, o blog e seu autor se prendem aos princípios éticos que regem a profissão de jornalista. Temos como compromisso primeiro a busca pela informação correta sempre primando e defendendo, a qualquer custo, a liberdade de expressão.

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