Foto: Arquivo pessoal

Ele é muito jovem, mas bastante experiente e descolado na sua profissão. Jornalista por formação e blogueiro por opção, Tiago Dória é um dos poucos habitantes da blogosfera brasileira que pode viver exclusivamente da sua atividade blogueira. Sua entrada no mundo tecnológico se deu ainda na ‘meninice’, quando passava o tempo jogando Atari e Master System. Daí foi um passo passo para começar a gostar de tecnologia, informática e internet, como ele mesmo relembra.

Para Tiago Dória, a maior atração do “mundo tecnológico” é “a sua capacidade de resolver problemas, mas também de criar fetiche”. Sucesso inconteste na Internet brasileira, nosso entrevistado tem seu blog hospedado no Portal IG desde 2005, quando recebeu o convite para integrar o time da casa. O Tiago Dória WebLog no IG é leitura obrigatória para quem quer saber das novidades tecnológicas. Sempre bem informado, Tiago diz que o mundo dos blogs tem lhe propiciado uma gratificante experiência de ensino/aprendizagem.

Sobre o futuro dos blogs, ele observa que “toda ferramenta tecnológica tem um pico de adoção e depois estabiliza. Com a televisão e os celulares foi assim. Com os blogs não será diferente”. Numa entrevista recente ao Cadeno Link, do Estadão, Tiago, disse que está chegando a hora da depuração da blogosfera brasileira. Leia, a seguir a entrevista entrevista que fizemos com um dos blogueiros mais ilustres do país:

Política com Pimenta - Para começar o nosso papo, me conte um pouco sobre a sua infância. Como foi sua “meninice’ e o que o levou a se sentir atraído por esse mundo tecnológico?”.

Tiago Dória - Desde a infância sempre gostei de vídeos-games - Atari, Master System - que não deixam de ser computadores. Aí foi um passo para começar a gostar de tecnologia/informática/internet.

O que mais me atrai nesse “mundo tecnológico” é a sua capacidade de resolver problemas, mas também de criar fetiche.

É poder acompanhar esse ciclo pelo qual toda ferramenta tecnológica passa”: de pico de adoção, estabilização e depois uma familiarização que até esquecemos a sua existência.

P com P - Eu sei que você foi um dos primeiros blogueiros brasileiros… Qual foi o caminho percorrido até chegar ao mundo dos blogs?

TD - Como a maioria dos blogueiros, comecei sem muita pretensão. No começo, blogs eram vistos como “diários de adolescente” ou somente coisa de nerd.

Mudou um pouco quando o Noblat entrou em cena, montou o seu blog, e indiretamente mostrou que as coisas eram um pouco diferentes.

Montei o blog em 2003. E em 2005, recebi um convite do portal iG para levar o blog para lá, onde permanece até hoje.

Hoje percebo que existe uma visão contrária em relação aos blogs no Brasil. São vistos como ferramentas para publicação de notícias e debate de opiniões. Atualmente, parece que o estranho é você ter um blog no estilo “diário de adolescente”.

Em resumo, é um caminho onde tenho aprendido e ensinado bastante.

P com P- Numa entrevista ao Caderno Link, do Estadão, você disse que o fenômeno blog está ficando saturado (no Brasil) e que é chegada a hora da depuração, digamos assim. Fale um pouco mais sobre isso…

TD - Toda ferramenta tecnológica tem um pico de adoção e depois estabiliza. Com a televisão e os celulares foi assim. Com os blogs não será diferente. Acredito que aqui, no Brasil, estamos entrando nesse pico de adoção e daqui a pouco começa a fase de seleção natural.

P com P - Do ponto de vista teórico – e prático também – os blogs acabaram por provocar a fragmentação dos espaços públicos. Cada blog funciona como um canal de comunicação individual, uma tribuna que é usada para cada um comunicar o que quer. O que você pensa sobre isso?

TD - Realmente, os espaços públicos se fragmentaram com a popularização da web. Antes as discussões ficavam centradas em certos ambientes. Por outro lado, surgem ferramentas que tentam centralizar de novo as discussões em um único lugar, como o FriendFeed.

O que chama a atenção neste novo cenário é o surgimento de tantos blogs. É muita gente falando. Será que temos quantidade de pessoas para ouvir tudo isso?

“Toda ferramenta tecnológica tem um pico de adoção e depois estabiliza. Com os blogs não será diferente”

PcomP - E os blogs usados como ferramentas de marketing, de fidelização de clientes: é apenas moda ou uma tendência que veio para ficar?

TD - Acredito que seja uma tendência que veio para ficar, mas não é toda empresa que deve ou está preparada para utilizar blogs como ferramenta de marketing.

Antes, devem ser resolvidas outras questões internas, do ponto de vista estratégico e até hierárquico. Às vezes, o uso do blog como fidelização é apenas o passo final de toda uma reestruturação pelo qual uma empresa deve passar

PcomP - As grandes empresas parece estar quebrando a barreira do preconceito contra blogs e blogueiros e se abrindo para o diálogo e negócios. Na sua avaliação, qual será o futuro da publicidade nos blogs?

TD - Será o mesmo futuro da publicidade da internet em geral, cada vez mais, focada em nichos. Acredito que esse onda de post patrocinado vai acabar em breve.

Além de ser uma forma tradicional de publicidade, já está sendo mal vista pelo mercado. Foi uma tentativa, assim como o “email marketing”, que hoje praticamente é associado a spam.

PcomP - E o jornalismo, como aconteceu em sua vida? Você sempre quis ser jornalista ou a vida ligada ao mundo da comunicação – por meio dos blogs – te levou a fazer Comunicação Social?

TD - Tinha alguns amigos na área. E sempre gostei de ler, mas do que escrever, e de estar contato com vários tipos de pessoas. Na minha visão, o jornalismo é uma profissão que proporciona essa experiência. De manhã, você pode estar entrevistando o Ministro da Economia e à tarde o cara que recolhe lixo nas ruas. E isso é um dos aspectos mais interessantes na prática do jornalismo: essa mobilidade social, essa possibilidade de conhecer pessoas de várias culturas e classes sociais.

Fiz Comunicação Social antes de montar o blog. O blog foi criado no meu último ano de faculdade

PcomP - Tiago, qual a sua avaliação do impacto dos blogs nos processos de comunicação? Você concorda com a tese de uma revolução sem volta que vai levar os jornais impressos à extinção, segundo alguns teóricos?

De jeito nenhum. Se os jornais acabarem um dia será devido a má administração. O principal efeito prático dos blogs para o jornalismo é que ele trouxe uma nova geração de jornalistas e formadores de opinião. Criou um novo mercado de opinião e colocou novos atores sociais no mercado.

Antes você tinha que bater na porta de uma Folha de S Paulo ou de uma CNN para fazer nome no jornalismo. Hoje você pode fazer o seu próprio nome, a sua própria marca, na rede.

PcomP - E o jornalismo participativo ou cidadão… Para você é uma onda passageira ou algo que ficará para sempre? Na sua opinião, quais mudanças deverá acontecer nesse processo de participação do “sujeito comum” na produção de conteúdo?

TD - O termo “jornalismo participativo” em si é mais moda. Participação existe há um bom tempo no jornalismo, seja por meio da carta dos leitores, dos repórteres-ouvintes nas rádios ou dos cinegravistas amadores. Jornalismo participativo sempre existiu.

O que acontece hoje é que essa participação acontece em larga escala. Teoricamente, o efeito da intensificação desse processo de participação será um jornalismo melhor e que atenda mais aos problemas e às necessidades dos usuários.

Outro provável efeito é que nos acostumaremos com um processo de produção de conteúdo não linear, onde não existirá uma matéria/cobertura com começo, meio e fim.

O processo de produção sempre estará aberto e será atemporal. Uma pessoa poderá contribuir para uma matéria que foi publicada há 2, 3 anos. Dependendo dessa contribuição, a matéria poderá ser reavivada.

PcomP - As tecnologias de comunicação se aperfeiçoam e são substituídas por novidades numa velocidade alucinante. Como você vislumbra a vida do que chamo de “homo tecnologycus” em 2050, por exemplo?

TD - Ainda temos muito chão pela frente. Acredito que a única certeza é que até lá a internet será uma tecnologia tão familiar e indispensável que esqueceremos a sua existência. Semelhante à energia elétrica, só lembraremos que ela existe quando faltar.

PcomP - Como você se informa sobre as tantas novidades que surgem no mundo d tecnologia diariamente?

TD - Vario muito as fontes e me informo de várias formas. Poder ser desde aquela conversa pelo messenger até aquele off numa festa.

Na internet, busco não fazer uma navegação muito certa. Gosto de usar sistemas como o Technorati e sempre dou uma passada nos sites do NYTimes, WSJ, Guardian e ElPais.

PcomP - Como é o dia do Tiago Dória desde o acordar até o final do expediente, quando você pode dizer: enfim, terminei mais um dia de trabalho?

TD - O meu dia-a-dia é bem incerto. Até no horário de acordar e dormir. Faço meu próprio horário de trabalho. Às vezes, estou escrevendo um post num avião, outras vezes do meu quarto, ou ainda de algum café. Não existe lugar muito certo para trabalhar.

No meu dia-a-dia, procuro aproveitar ao máximo a mobilidade e atemporalidade que as novas tecnologias proporcionam. Como toda atividade intelectual você não pára, não tem como desligar o cérebro.

PcomP - Tiago, obrigado pela entrevista. Deixe a sua mensagem para os “cuecas blogueiros de plantão”, como diria o ‘filósofo-global-da-cultura-pop-televisiva’, Luciano Huck.

TD - Procurem trabalhar com que mais gostam, façam diferença na vida de seus leitores.

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