Volto agora a falar sobre o debate de ontem acerca do tema “O processo de ocupação e a organização das terras na Amazônia e o papel da mídia nesse processo”, promovido pelo Centro Acadêmico do Curso de Jornalismo da Faculdade Atual da Amazônia, cuja presidente é Evilene Paixão.

Muito bem. Foi um debate muito proveitoso sob todos os aspectos. Primeiro, por levar aos acadêmicos de jornalismo e, portanto, futuros formadores de opinião, conhecimentos sobre uma questão tão complexa e que merece ser debatida de forma permanente. Segundo, a exposição do professor Nélvio Dutra foi brilhante. Já falei um pouco sobre isso aqui.

O professor disse aos estudantes que eles precisam investir em pesquisa para que consigam entender mais e mais sobre a questão e para se constituírem em jornalistas capazes de contestar as afirmações do poder (ou de seus representantes sobre temas polêmicos como este). Para ele, a elite e o poder político local não tem o interesse de debater esses assuntos da forma como deveria e desrespeita, inclusive, acordos e tratados assinados no passado sobre a questão das terras etc.

A participação dos profissionais de jornalismo Airlene Carvalho (TV Roraima/Globo), Loide Gome (Folha de Boa Vista) e Rubem Leite (Rádio FM Monte Roraima) foi decisiva para o engrandecimento do debate sobre o papel da mídia na discussão e informação da sociedade sobre o processo de ocupação das terras na região amazônica.

Airlene e Loide sustentaram que os veículos que representam atuam de forma plural, deixando o público municiado de dados para formar seu juízo de valor sobre a questão. A representante da Folha afirmou que a pluralidade do jornal fica explícita no posicionamento do editor-chefe, Jessé Souza, em seus artigos defendendo a causa indígena (ele é a favor da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol em área contínua) e  na contraposição feita, por exemplo, na coluna Parabólica, que representa o pensamento da elite política e econômica local (essa observação é deste editor).

Airlene Carvalho da TV Roraima colocou que a emissora apresenta os fatos colocando a maior diversidade de opiniões possível, mas devido à característica do veículo televisão, onde o tempo é restrito, não dá para aprofundar muito o assunto. “Mas procuramos oferecer ao telespectador um panorama que lhe permita tirar suas conclusões”, disse.

A parte polêmica sobre a atuação da mídia ficou por conta do jornalista Rubem Leite, da FM Monte Roraima, emissora umbilicalmente ligada aos movimentos sociais. Ele disse que a mídia age de forma a beneficiar a elite e que há muito preconceito com a questão indígena. Afirmou também que os poderes constituídos se juntaram para apoiar o prefeito de Pacaraima, Paulo César Quartiero (PDT), que promoveu uma veradeira guerrilha em Roraima. Para Rubem, a mídia local marcou posição favorável aos rizicultores.

O professor de Oficina de Texto, Avery Veríssimo, disse que os cemitérios, as marcas paelontológicas presentes na região deixam claro que a Raposa Serra do Sol é, por direito, dos indígenas, e que há muito preconceito contra esses povos ancestrais, assim como há má vontade da elite em reconhecer tais direitos.

Eu atuei como mediador do debate, mas no fechamento das discussões não me contive a também expus a minha opinião. Para mim essa é uma briga de Davi contra Golias (a elite política e econômica contra a minoria indígena). A mídia, apesar de mostrar várias versões o conflito na região da Raposa Serra do Sol, se colocou claramente do lado da resitência dos rizicultores que, comandada por Paulo César Quartiero, incentivou a desobediência civil e promoveu cenas de viôlência.

A participação dos alunos com perguntas ou intervenções pode-se dizer que foi positiva, no sentido de que eles demonstraram interesse em entender o assunto e colocar sua visão sobre o tema. A acadêmica do 3º semeste de Jornalismo, Sunayra Cabral, quis saber se os representantes da mídia consideram correta a retirada de pessoas que moram há anos nas comunidades que ficam dentro da reserva. Jonas Elmore, também do 3º semestre, disse que a mídia tem um discurso conflitante e que seria necessário mais união pelo bem comum, no que foi rebatido por Loide Gomes. Ela argumentou que discurso único é prejudicial para a pluralidade de idéias. Foram bons momentos, enfim.

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