Escrevi no meu último post publicado ontem sobre o jogo político-ideológico feito em torno da questão indígena roraimense.

Teci comentários sobre a atuação e os argumentos utilizados por quatro segmentos diretamente envolvidos na questão: os rizicultores, a classe política - financiada em parte por estes -, as organizações indígenas e as igrejas (Católica e evangélicas).

Disse e reafirmo que parte dos atores representantes desses segmentos usam de argumentos eivados de equívocos, mentiras, meias verdades e preconceitos mútuos.

Deixei de lado um segmento para tratá-lo de forma isolada: a imprensa.

Em Roraima a imprensa é, toda ela, porta-voz da elite político-econômica, pois que os donos de veículos de comunicação representam, eles próprios, o poderio político e econômico local.

Por conseguinte, o discurso da imprensa, notadamente dos jornais impressos diários e das emissotas de tv, todos ligados direta ou indiretamente às facções políticas locais, agem de forma preconceituosa contra a causa indígena.

O exemplo mais representantivo é o tradicional e conservador jornal Folha de Boa Vista. Este sempre está aliado à causa dos rizicultores e deixa claro em seus editoriais e matérias de que lado está.

Uma matéria publicada na página 3 de hoje, dedicada aos assuntos de política, chama a atenção. O título: “Advogado entende que governo não pode desintrusar não índios”.

O primeiro personagem ouvido, mas que não ganhou destaque na matéria, foi o presidente da seccional roraimense da Ordem do Advogado do Brasil, Antônio Oneildo Ferreira. Este entende que o governo pode executar seus atos [no que diz respeito à retirada dos rizicultores da Terra Indígena Raposa/Serra do Sol] utilizando o poder de polícia.

Por manifestar tal opinião, Antônio Oneildo ganhou apenas o lide da matéria e foi esquecido no resto do texto, que ocupa 20 centímetros [com foto] por quatro colunas. Para referendar a visão e opinião pré-concebida do jornal, buscou-se um outro personagem, o também advogado Fernando Menegais.

Este sim, disse o que o jornal queria ouvir para publicar em matéria: que o governo está agindo errado ao usar poder de polícia para realizar a retirada dos arrozeiros e outros não índios presentes na reserva indígena. Este é o discurso transformado em propaganda ideológica pelos arrozeiros, com a participação da imprensa e da classe política.

A imprensa sempre busca alguma voz para legitimar seu discurso. Para fazer algo plural, pelo menos deveriam ter dado um pouco mais de espaço ao presidente regional da OAB para que os pontos de vista dos dois estudiosos do direito se cruzassem. Afinal, confrontar versões e opiniões é um dos princípios jornalísticos.

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